Ser mulher, ser guerreira: o mito da mulher que faz-tudo
- Thaíse Cavalcante
- 5 de mar.
- 5 min de leitura

No século 21, as mulheres conquistaram espaços e direitos antes inimagináveis. Elas ocupam posições de liderança, desempenham papéis relevantes no mercado de trabalho e têm uma voz cada vez mais ativa na política e na sociedade. No entanto, com essas conquistas, também surgiram novas e pesadas expectativas.
A mulher contemporânea é, muitas vezes, vista como uma espécie de super-heroína capaz de fazer tudo — ser uma profissional de sucesso, uma mãe perfeita, uma esposa atenciosa e ainda manter a aparência impecável. Mas, a que custo? Essa pressão incessante para "dar conta de tudo" esconde um mito perigoso: o mito da mulher guerreira que pode e deve enfrentar triplas jornadas sem sucumbir à exaustão.
O mito da mulher guerreira: superando o impossível
A narrativa da mulher guerreira é tão impregnada em nossa cultura que muitas vezes é difícil questioná-la. A sociedade nos diz que, para sermos valiosas, precisamos ser as melhores em tudo: líderes exemplares no trabalho, mães dedicadas, esposas e amigas perfeitas. No entanto, há uma falha óbvia nesse modelo. A mulher moderna é imposta a uma cobrança que exige que ela desempenhe papéis contraditórios, simultaneamente, sem nunca falhar. A pressão para ser tudo e dar conta de tudo não é apenas uma sobrecarga; é uma armadilha emocional e psicológica.
Uma das maiores pressões que ainda perdura é o papel de mãe. Embora as mulheres tenham avançado significativamente no mercado de trabalho, a maternidade continua sendo uma responsabilidade majoritariamente atribuída a elas. Dados do Fórum Econômico Mundial (2020) mostram que, globalmente, as mulheres ainda são vistas como as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos, o que frequentemente exige que escolham entre suas carreiras e sua vida familiar. Enquanto isso, os homens, raramente, são desafiados a fazer o mesmo sacrifício. Este desequilíbrio de expectativas sobre os papéis de gênero resulta em uma sobrecarga que, em muitas ocasiões, não leva apenas ao esgotamento, mas também à frustração e sensação de inadequação.
O custo psicológico: um fardo silencioso
Essa carga de expectativas não é só psicológica, é física. No mundo atual, as mulheres são vistas como multitarefas por excelência, mas o custo dessa “habilidade” é elevado. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021), mulheres que desempenham múltiplos papéis, como profissionais e cuidadoras, têm índices significativamente mais elevados de ansiedade e depressão do que os homens. Mas as consequências não param por aí. De acordo com uma pesquisa da Harvard Medical School (2020), as mulheres têm maior propensão ao desenvolvimento de doenças autoimunes, como lúpus e esclerose múltipla — condições com prevalência de até 80% no sexo feminino. Isso não é coincidência: o estresse crônico, frequentemente exacerbado pela sobrecarga de responsabilidades, é um dos fatores principais que contribuem para essas condições debilitantes.
Além disso, muitas mulheres vivem em um ciclo vicioso de exaustão, buscando a perfeição onde ela simplesmente não existe. A pressão para "ser tudo" é um convite ao burnout — esgotamento emocional e físico causado pela sobrecarga constante de tarefas. Um estudo do Journal of Marriage and Family (2022) apontou que mulheres que conciliam trabalho e cuidados familiares têm 40% mais chances de sofrer de estresse severo e depressão. Ao tentar corresponder a todas as expectativas externas, muitas se perdem no processo e ficam reféns de sua própria necessidade de aprovação.
A pressão estética: uma batalha desigual
Mas a pressão não para por aí. A mídia, as redes sociais e a publicidade vendem uma imagem da mulher perfeita, realizada e sempre feliz, enquanto alimentam uma distorção da realidade. A busca pela "perfeição" estética, imposta por padrões de beleza inatingíveis, é uma das formas mais cruelmente insustentáveis de comparação. Mulheres são constantemente bombardeadas por um ideal físico que não reflete a diversidade de corpos, mas que, ao mesmo tempo, exerce uma pressão esmagadora sobre a autoestima e saúde mental.
Estudos da American Psychological Association (2022) revelam que a obsessão por padrões de beleza muitas vezes leva a transtornos como dismorfia corporal, transtornos alimentares e depressão.
Estima-se que, no Brasil, cerca de 90% dos casos de transtornos alimentares envolvem mulheres (Associação Brasileira de Psiquiatria, 2021). A luta constante para atingir esses padrões irreais contribui não só para a ansiedade, mas para um ciclo de autocrítica implacável que mina a confiança e o bem-estar das mulheres. E o mais irônico é que, enquanto se exige que a mulher seja incansável em todos os campos de sua vida, ainda se exige que ela atenda a um padrão físico que reflete uma ideia antiquada e superficial de feminilidade.
Desconstruindo o mito: é hora de redefinir o papel da mulher
É urgente questionar e redefinir o mito da mulher guerreira. A pressão para ser “tudo para todos” não é empoderamento — é uma armadilha disfarçada de ideal. Ser mulher no século 21 não deve ser sinônimo de sobrecarga e exaustão. Ao contrário, as mulheres precisam entender que não devem ser obrigadas a corresponder a um modelo que as extenua, que as enfraquece emocionalmente e que, muitas vezes, prejudica sua saúde física e mental.
Redefinir o papel da mulher significa não mais buscar a perfeição, mas o equilíbrio. Significa questionar os papéis tradicionais e reconhecer que a mulher não precisa abraçar todas as responsabilidades, especialmente as que resultam em sobrecarga, em nome de uma idealização irrealista. A verdadeira emancipação feminina está em ter a liberdade de ser, sem se perder nas expectativas impostas pela sociedade.
Para alcançar esse equilíbrio, é essencial que as mulheres aprendam a impor limites claros. Isso começa com a percepção de que não é preciso abraçar todas as responsabilidades. Ao invés de buscar atender a todas as demandas e expectativas externas, a mulher pode e deve se permitir dizer "não" quando necessário, sem se sentir culpada por isso. Aprender a delegar, pedir ajuda e confiar nas pessoas ao seu redor também é fundamental. A pressão para ser "a mulher que faz tudo" não pode ser carregada sozinha.
Uma estratégia eficaz é criar uma rede de apoio, seja com a família, amigos, colegas de trabalho ou até grupos de suporte. O simples ato de dividir responsabilidades com outros pode aliviar muito da pressão. Além disso, os parceiros devem ser mais conscientes de sua responsabilidade em dividir as tarefas domésticas e familiares, para que a carga não recaia de forma desigual sobre as mulheres. A sociedade também precisa evoluir nesse sentido, desconstruindo a ideia de que a mulher deve ser multitarefa por excelência.
Ser mulher no século 21 pode ser empoderador, mas é preciso fazer uma escolha consciente: não se deixar consumir pelo mito da mulher guerreira. Priorizar a saúde mental, emocional e física não é um sinal de fraqueza, mas sim de força. E é essa força que permitirá que as mulheres prosperem de forma mais autêntica, equilibrada e saudável — sem o peso de um ideal impossível de ser alcançado. Aproveitando a proximidade do 8 de março: Feliz Dia de Ser Mulher como quiser (e puder)!
Até o próximo artigo! ♥#mulher #mulheres #feminismo #empoderamentofeminino #mulherguerrei
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